O guardião do Palácio do Campo das Princesas
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É no suntuoso Palácio do Campos das Princesas que trabalha o funcionário com mais tempo de atividade na Secretaria da Casa Militar, localizada na sede do Governo do Estado. O Subtenente Iranildo Mendes, popularmente conhecido como Cidadão, é quem literalmente abre e fecha as portas palacianas, e recepciona autoridades e visitantes no hall de entrada do poder executivo estadual. Esse militar é profundo conhecedor da história de Pernambuco e do próprio Palácio e em março de 2024 completa 45 anos de serviço, carregando consigo muita responsabilidade pela função que exerce e histórias memoráveis vivenciadas ao longo do tempo.
Cidadão possui uma pontualidade britânica e chega ao trabalho às 4h15. O retorno ao lar só acontece às 19h30, e tem sido assim desde o princípio. Essa história começou em 1979, quando Iranildo entra na Casa Militar como soldado exercendo a função de motorista. Em 1985, já como sargento, passou a integrar a recepção da Camil. Foi nesse setor que ele diz ter tido o privilégio de ser a primeira guarnição a viajar a Brasília para um dos momentos da democracia brasileira: o impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello, em 1992. “Na ocasião, prestei a segurança governamental. E, para minha surpresa, de última hora tive que assumir a guarnição, pois o capitão que comandava a equipe teve que voltar ao Recife por problemas de saúde familiar. Poucos tiveram a experiência de fazer parte desse momento da história do Brasil, e eu estava lá assistindo a tudo”, relembra.

HISTÓRIA – Iranildo Mendes foi testemunha ocular de fatos marcantes que aconteceram no Palácio do Campo das Princesas, a exemplo de um coronel da Casa Militar que foi governador por um dia. “Durante a transição de Miguel Arraes para Jarbas Vasconcelos, foi o coronel Moisés que fez a passagem do Governo, no ano de 1999. O antigo governante não pôde comparecer por algum motivo e foi o chefe da Camil que assumiu esta função”, conta. Mendes viveu, também, um dos capítulos mais tristes para os pernambucanos dentro do PCP, que foi a morte por acidente aéreo do ex-governador Eduardo Campos, durante a campanha presidencial de 2014. “Eu recebi a notícia quando voltava do meu horário de almoço, e foi quando eu tomei conhecimento da queda do avião. A emoção tomou conta de toda recepção”, recorda.
Cidadão participou diretamente de um fato inusitado para manter a ordem e segurança do Palácio do Governo. Certa vez, um jornalista nacionalmente conhecido fazia uma reportagem sobre o “Boi Voador”, encenação na qual um boi de couro empalhado saía do segundo andar até a Praça da República. A questão foi que autorizaram o profissional de comunicação a entrar pelo portão de acesso de veículos com um touro de verdade. “Além de entrar nas dependências externas do prédio histórico, ele queria passear pelo saguão com o animal. Consegui detê-lo pela retaguarda do Palácio, alegando que a situação poderia causar grandes transtornos às pessoas, às estruturas internas palacianas e ao próprio touro”, narra. O jornalista afirmava que tinha a tal autorização para circula por toda a estrutura e Iranildo não teve outra opção senão utilizar o antigo LP (linha cruzada). “Usei o LP e conversei com o capitão da Camil, que só autorizou apenas a entrada nos jardins e prestou apoio ao meu trabalho, afi rmando que agi com coerência”, pontua.
LENDAS – Por ser um prédio muito antigo, várias lendas de assombrações circulam sobre o Palácio, e muitas delas são verdadeiras, de acordo com Iranildo. Uma das mais importantes é mencionada por Gilberto Freyre, quando o escritor retrata a mulher de branco. “O sociólogo fez um comentário que essa mulher aparece de forma esporádica, e quando isso acontece o Estado de Pernambuco sofre uma catástrofe”, disse. O próprio Cidadão afi rma que já viu a tal mulher na sala de refeição do governador, após um jantar, durante o governo de Jarbas Vasconcelos
ONZE GOVERNADORES– No decorrer de sua trajetória, que se mistura com a própria história do Palácio do Campo das Princesas, Iranildo viu passar 11 governadores, e se sente honrado em fazer parte de mais uma gestão, composta por duas mulheres, a governadora Raquel Lyra e a vice-governadora Priscila Krause. “Fico lisonjeado e para mim é muito confortável trabalhar com duas mulheres no poder, pessoas de fibra, de muita luta e sensíveis aos problemas sociais. Tive o privilégio de trabalhar também com o pai da vice, Gustavo Krause, e com o pai da atual governadora, João Lyra”, destaca. Quando indagado sobre o segredo para manter o ritmo de trabalho intenso na sede do Governo, ele revela que uma boa alimentação e muito amor pelo que faz são os ingredientes principais para se manter por tanto tempo no mesmo lugar. “Eu amo o que faço, e não me vejo trabalhando em outro lugar. Este Palácio é minha vida. Já pedi ao meu chefe que se tiver de ser mandado embora, gostaria de ser avisado 30 dias antes, para me preparar psicologicamente”, brinca Iranildo.
Foto: Miva Filho